Visão de um cego

A Bíblia registra dentre todos os milagres que Jesus Cristo efetuou na terra o fato a seguir: Ao se dirigir cercado por uma multidão em direção a Sinagoga, um cego de nome Bartimeu, muito distante do local onde se aglomerava a multidão em volta de Cristo, pois se a gritar insistentemente cada vez mais alto: Jesus Cristo filho de Davi, eu quero ver, quero enxergar. Algumas pessoas ao ouvirem o clamor daquele homem desesperado disseram-lhe: Cala tua boca, Jesus não vai te ouvir. O aviso foi desconsiderado, prosseguiu repetindo sua mensagem várias vezes, entusiasmado e com muita fé, tinha convicção que seria atendido.

Em dado momento Cristo parou e disse: tem alguém me chamando, ouvi alguém me chamar, seguiu em direção ao encontro daquele que suplicava sua presença, ao chegar perguntou: Que queres que eu te faça? Veio a resposta: Quero ver, quero enxergar, sei que podes me curar. Foi então feito o milagre pelo filho de Deus.

Ouve em longínqua época o cruel processo de tirania, os indivíduos que nasciam com algum tipo de deficiencia eram imediatamente descartados, ou seja, eliminados e mortos, pois na ótica dos tiranos não seriam capazes de defenderem os reis como fortes guerreiros.

O atual momento que vivemos em pleno século XXI a realidade é diferente, o processo de eliminação e exclusão é feito através de maquiações e ludibriações das autoridades, inteligentemente desrespeitando a legislação de garantias de direitos a esse contingente da sociedade de maneira bastante implícita, sendo seus efeitos tão devastadores quanto o período imperialista, vejamos: Semana passada esteve em visita ao Brasil por sete dias a mais alta autoridade da Igreja Romana, na pessoa do Papa Francisco, foi acariciado, elogiado, idolatrado, ovacionado, abraçado, etc. encantou a todos com sua simplicidade e carisma, demonstrou ser humilde ao extremo, apesar de sua idade avançada encontrou fôlego e resistência física para cumprir extensas pautas e compromissos assumidos com a Jornada Mundial da Juventude e outros.

No campo da parcela da sociedade adjetivada de minoria, refiro-me a 46 milhões de pessoas com deficiencia existente no Brasil, estatística do IBGE senso2010, não foi pronunciada sequer uma vírgula. Quero deixar bem claro que essa referencia não significa afirmar a inexistência de algum indivíduo com as credenciais acima mencionadas no meio da multidão que se formou em toda cidade do Rio de Janeiro. Minha observação prende-se especificamente ao fato de encontros do pontífice com segmentos da sociedade que também sofre repúdio e antipatia da população em decorrência de fatos e atos pelo próprio protagonizado, voluntária ou involuntariamente como vítima ou autor, cito: sobreviventes da chacina de Bangu, menores delinquentes, moças em processos de reclusão, visita a favelados e outros.

O Papa teceu longo comentário referente a opção sexual, deixou explícito que não interferiria nem tão pouco julgaria a liberdade individual de cada um em exercer sua sexualidade. Conclamou a todos que desenvolvesse o processo de inclusão dos homoafetivos, finalizou suas palavras sobre o tema interrogando: Quem sou eu para julgar a vontade das pessoas?

Lembro-me nitidamente que a Campanha da Fraternidade de 2006 promovida pelo CNBB, teve como tema e lema “Fraternidade e pessoa com deficiencia; levante-te vem para o meio”, lamentavelmente esse processo de inclusão não se repetiu. Em 2013 ficou visível o processo de exclusão submetido às pessoas com algum tipo de deficiencia no Brasil. Atribuo responsabilidade aos organizadores e anfitriões brasileiros que demonstraram para o mundo que a legislação vigente no Brasil pertinente a pessoa com deficiencia é desrespeitada e rasgada todos os dias, posteriormente jogada na lata de lixo. A tal integração e inclusão é de fato apenas falácia com objetivo escuso de ludibriar a opinião pública e enganar aqueles que compõem esse contingente, como tirar facilmente pirulito da boca de criança.

Na visita do Papa João Paulo II a Teresina, como forma de inclusão um dos convidados foi o senhor Sebastião Ferreira, pessoa com deficiencia visual, um dos fundadores da Associação dos Cegos do Piauí/ACEP. Esse registro tem o objetivo de fundamentar essa matéria.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *