Tenebroso dia seguinte

Em 2002 fui diretor da Associação dos Cegos do Piauí/ACEP, sendo o presidente da instituição o professor Aloizio Pereira dos Santos. No início da gestão percebi haver muitas irregularidades, graves problemas acumulados ao longo dos anos sendo empurrado para baixo do tapete pelos presidentes que se revezavam rotativamente sem que houvesse o mínimo interesse de implementar severa reforma para resgatar a seriedade, honestidade, dignidade, responsabilidade e disciplina.

Todos meus questionamentos levados ao conhecimento da diretoria eram pautas facilmente vencidas, todos acostumados com a corrupção reinante imaginavam com base em seus parcos conhecimentos que a prática de apropriação dos minguados recursos da instituição era ato normalíssimo. Lembro-me de alguns episódios deprimentes e criminosos: Havia dois dentistas lotados na instituição recebendo rigorosamente seus salários oriundos do erário público para prestarem serviços de suas atividades afins, pasmem os senhores, sequer havia ambulatório odontológico para o exercício da atividade dos profissionais, esse fato indecoroso perdurou por décadas.

Certa ocasião por volta das 14h ao chegar para uma reunião me deparei com imensa quantidade de moveis, sito: poltronas, cadeiras, mesas, birôs, estantes, escrivaninhas, armários e outros, me interessei em saber a procedência do material, fui informado que tratava-se de uma doação da Caixa Econômica Federal por ter renovado seu mobiliário. Recordo-me que foi descarregado caminhão baú superlotado, acredite se quiser, todos esses donativos desapareceram de uma noite para o dia como passe de mágica.

Em outra oportunidade, por ocasião do natal a receita federal fez doação de grande quantidade de eletrodomésticos apreendidos nas fiscalizações, como: dezenas de ventiladores, liquidificadores, gravadores, toca CDs, som três em um, batedeiras, todos esses produtos lacrados em suas embalagens de origens. Para estarrecer ao mais humilde e simplório imbecil, todo esse material anoiteceu e não amanheceu na instituição, usaram como argumento para explicar o inexplicável, durante a madrugada houvera um assalto e levaram tudo. A título de informação nessa ocasião havia dois vigias na instituição, sendo um deles policial militar que declarou não ter visto nada, pois estava dormindo, o outro era um vigia cego, mudo e surdo.

Por deliberação da turma da bandalheira em um final de semana usaram o micro-ônibus da instituição disponível para transportar crianças cegas com dificuldade de locomoção de suas casas a instituição e vice-versa, mas de maneira indevida foram à praia do olho d’água na cidade de São Luis no Maranhão, lá a cachaça rolou solta, a maré encheu e levou o ônibus para o mar. Esse fato dantesco demonstra o nível de responsabilidade e compromisso que os administradores dessa instituição têm para com o patrimônio público.

O que é bastante grave em todos esses episódios é que eles se repetem ao longo dos anos impunemente, causando severos danos e imensos prejuízos, especialmente aos associados desfavorecidos e necessitados, esquecidos e abandonados por esses espertalhões que chegaram até aqui fugindo da fome e da miséria de suas origens.

O Ministério Público do Piauí tem uma promotoria que cuida de associações, ONGs e fundações, pela promiscuidade, conivência e omissão desse órgão, acredito que tem a frente autoridade altamente incompetente e descompromissada, pois nada fez até a presente data para penalizar severamente os protagonistas desses eventos.

É necessário urgentemente a intervenção do estado nessa entidade, para que haja a verdadeira integração, inclusão e capacitação da pessoa cega do estado do Piauí com base em garantias de legislação vigente no Brasil.



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Este texto foi publicado em quarta-feira, setembro 25th, 2013 às 8:27 am na(s) categoria(s) Crítica, Denúncia, Geral. Você pode acompanhar todos os comentários deste post através do feed RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou dar trackback através do seu próprio site.

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