Pouso forçado

Nesta terça-feira (12) a Polícia Civil, Ministério Público e Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro efetuaram as prisões de dois acusados de terem executado a vereadora Marielle e seu motorista.

Em minha análise como formador de opinião há 40 anos, com experiência adquirida ao longo de 26 anos no Rio de Janeiro, quando acompanhei e testemunhei desova de cadáveres espalhados por vários logradouros da cidade maravilhosa, vitimados por grupos de extermínios adjetivados de mão branca, formado por milicianos e matadores de aluguel contratados por comerciantes, bixeiros, traficantes e outros.

Os assassinatos eram estimulados pela imprensa carioca, que classificava tais justiceiros como sendo limpadores do Rio de Janeiro, evitando que a sociedade fosse importunada, violentada e agredida em seu direito de ir e vir, como também todas as garantias de lazer e exercício de cidadania em qualquer hora do dia ou da noite sem qualquer receio de sofrer ato de banditismo. As próprias autoridades cariocas faziam vistas grossas, ignorando a existência de brutais crimes em virtude da garantia da pseudolimpeza, a impunidade era absolutamente contemplada pelo silêncio e conivência de todos. Os assassinatos eram a luz do dia sem o mínimo constrangimentos dos executores.

Lembro-me de um fato horroroso, terrível, humilhante e vergonhoso efetuado na rua da Carioca próximo ao Citibank localizado no cruzamento com Avenida Rio Branco, um veículo sem placas com 4 indivíduos a bordo estacionou, todos desceram rapidamente empunhando metralhadoras, um elemento de compleição avantajada disparou em desabalada carreira no sentido da praça Tiradentes, foi perseguido e alvejado com dezenas de tiros, tombou na calçada de um comércio de secos e molhados morrendo instantaneamente, os algozes voltaram tranquilamente ao veículo estacionado, sendo o fato mais grave e estúpido uma viatura da Polícia militar Chevrolet modelo veraneio estacionada em frente a um caldo de cana chinês esquina com Largo da Carioca, cujos ocupantes presenciaram todo o ato sem esboçar a mínima reação.

Faço esse preâmbulo para justificar um ano de investigações dessas instituições policiais para que fossem alcançados o resultado positivo da operação Marielle. A polícia cortou na própria carne, mesmo sendo obrigada a manter absoluto sigilo para que não vazasse o mínimo possível dos modus operandi investigativos desenvolvidos. Apesar de todos esses cuidados o Ministério Público antecipou em um dia as prisões dos acusados por terem obtido conhecimento da fuga planejada, sendo a operação praticada no dia seguinte (13), seria babau cavalo de pau, os homens teriam escapados.

Apesar de todos os esforços de autoridades e poderes para moralizarem a política do Rio de Janeiro, lamentavelmente a coisas atuais ainda estão muito parecidas com os acontecimentos protagonizados no passado. A polícia da cidade de São Sebastião é uma das mais perigosas do Brasil, o fato relevante contribuitivo para a parcial elucidação do crime foi graças a tecnologia avançadíssima usada pelos investigadores, contaram também com o fator sorte e a disponibilidade do cidadão denunciando algo que soubesse.

O Ministério Publico tomou conhecimento de uma reunião que houve com os principais envolvidos ao atentado. As investigações evoluíram em virtude da presença do automóvel na reunião que foi visualizado nitidamente o carro prata nas tomadas de filmagens de câmeras resgatadas, o mesmo carro foi identificado por câmeras no condomínio da Barra, quando seguia para o local onde estava a Marielle, sendo este veículo estacionado onde a vereadora se encontrava e em vários momentos da perseguição e morte da parlamentar.

A identificação dos contatos dos executores em nuvens de telefonia são provas técnicas complementares incontestáveis a condenação dos mesmos. A segunda etapa das investigações adjetivadas de “calcanhar de Aquiles” é saber se houve mandante, algumas autoridades advogam a possibilidade do motivo ser ódio aos militantes políticos de esquerda, exatamente o trabalho desenvolvido pela vereadora assassinada.

O que é gravíssimo referente a todo esse episódio, prende-se ao fato que Marielle era uma ativista, quando um líder dessa estirpe é silenciado, eliminado ou executado causa gigantesco prejuízo as minorias, pois o trabalho realizado não tem abrangência individual, é coletivo, favorecendo principalmente a classe de excluídos, por exemplo: negros e negras, homoafetivos, lésbicas, favelados e etc.

A sociedade brasileira é altamente discriminadora e preconceituosa, o fosso entre o menor e o maior é gigantesco, poucos tem muitíssimo e muitos tem posses insignificantes, as oportunidades de progresso, desenvolvimento social e profissional são privilégios de feudais oriundos de nobres famílias brasileiras que se perpetuam em todas as posições e cargos, com vida nababesca ignorando os que passam fome em todos os semáforos, ruas e avenidas das grandes e pequenas cidades.

As garantias de direito da mulher é algo inaceitável, preocupante e desmoralizador, a Câmara Municipal de Teresina comporta 29 vereadores, apenas três mulheres representam o universo feminino equivalente a um milhão de habitantes. A Assembleia Legislativa do Estado do Piauí com 30 cadeiras de deputados, apenas e tão somente quatro mulheres compondo esse poder, com índice populacional estatístico de 3.200, milhões de habitantes, exemplifico apenas com esse fato o desprestígio da mulher perante a política, mas dezenas de outros segmentos sofrem o mesmo processo de retaliação, represália e menosprezo.

É vital o envolvimento de 200 milhões de brasileiros para encampar uma reforma de atitude, respeito e responsabilidade de combate a todas essas mazelas no mínimo dois séculos se tivéssemos começado ontem.

Carlos Amorim DRT 2081



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Este texto foi publicado em quarta-feira, março 13th, 2019 às 9:37 am na(s) categoria(s) Crítica, Geral. Você pode acompanhar todos os comentários deste post através do feed RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou dar trackback através do seu próprio site.

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