Ossos do ofício

Em 10 de abril de 2010 em um sábado o apresentador de televisão Fausto Silva sepultou seu genitor. No dia seguinte domingo o enlutado levou ao ar o programa domingão do Faustão, trabalhou normalmente como se nada de anormal houvesse acontecido. Ao encerrar o programa o mesmo agradeceu o carinho, apoio, solidariedade e dedicação dos companheiros. Fiquei a imaginar; o dinheiro traz felicidade? Acredito que não. Até onde vai cláusulas contratuais que impedem um trabalhador de chorar a perda de seus entes queridos? O compromisso com seu público não poderiam ser adiados? Os patrocinadores são insensíveis? A disputa violenta pela audiência nesse concorrido mercado televisivo não poderia ser sensato? Até quando um homem pode ser escravo do dinheiro?

Em 17 de abril de 2010 o povo brasileiro juntamente com o rei Roberto Carlos sofreram uma perca irreparável com a morte da genitora do cantor (Laura). Coincidentemente no domingo o cantor estava em uma turnê nos EUA desenvolvendo a sua atividade profissional. Após encerrar o show o público acreditava que ele voltaria para o fechamento definitivo, fato que não aconteceu, pois o cantor ao chegar ao camarim tomou conhecimento do ocorrido no Brasil tendo se desestruturado emocionalmente. A incumbência de informar ao público e pedido de desculpas ficou a cargo da produção, coincidentemente na segunda feira, o cantor sepultou sua mãe justamente no dia de seu aniversário quando completou sessenta e nove anos. Vemos nesse episódio uma verdadeira drasticidade envolvendo duas pessoas. Se fizermos um estudo ou uma pesquisa minuciosa talvez não encontre um fato semelhante no planeta terra.

Em maio de 1994 o mundo acompanhou o trágico acidente que vitimou o vitorioso piloto de fórmula 1 Airton Sena. No dia anterior ele havia sofrido fortes abalos emocionais com a morte de um colega seu na corrida de classificação. Houve ainda na mesma ocasião o acidente que envolveu o também piloto brasileiro Rubinho que quando estava hospitalizado recebeu todo apoio e atenção por parte de Airton Sena. A pergunta que todas as pessoas se fizeram, Será que aquele piloto reuniu condições psicológicas, emocionais e estruturais para desenvolver o seu arriscado e perigoso trabalho? (Se o piloto não houvesse corrido naquele fatídico dia ele também poderia ter morrido em seu chuveiro?)

Há 30 anos passados encontrava-me na praça onze na cidade do Rio de Janeiro, fui a um espetáculo circense, na Av. Getúlio Vargas houve um acidente fatal na frente do circo, a vítima foi uma criança filha do palhaço do circo, ele lá estava descontrolado e abalado com a tragédia que abatera sobre sua família. Comprei meu ingresso, me acomodei, em fim espetáculo iniciado, foi de fato inesquecível quando o quadro do palhaço foi apresentado, lá estava aquele homem que horas antes havia perdido seu filho querido. Sorridente brincalhão, contando piadas desenvolvendo normalmente seu trabalho como que se nada tivesse acontecido. Nessa apresentação havia um quadro em que uma moça lhe roubava uma cadelinha, com a perda da posse do animal ele chorava como interpretação, naquele dia ele chorou de verdade e chorou muito, foi ovacionado de pé por todos que ali estavam presentes.

São ossos do ofício

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