Odiado e amado mestre

Cheguei em Arari em 1966, rapidamente me adaptei as normas e regras determinadas do Pe. Clodomir Brandt e Silva aos internos. Por ser um menino extrovertido, alegre, brincalhão e muito moleque, facilmente me integrei no seio da sociedade arariense, especialmente junto aos companheiros e amigos do Ginásio Arariense.

No internato tínhamos horário para tudo cito: café, lanche, almoço e janta, o banho era no rio Mearim, apenas 10 minutos, sempre acompanhado dos olhos vigilantes do padre ou de alguém encarregado. Ficávamos 4 horas pela manhã e 2 horas a noite na sala de aula do internato, onde preparávamos as tarefas das matérias curriculares, as 21 horas todos recolhiam-se aos seus aposentos para dormir e despertar às 6 da manhã para uma nova atividade diária. Aos sábados os que não haviam cometido alterações no decorrer da semana eram liberados toda a manhã para passeio no bosque, Igarapé do Nema ou caminhada no Goiabal, embora nossa opção fosse totalmente diferente, tomar cerveja no grilo, alugar bicicleta e tomar banho no Rio Mearim na Rua da Beira, etc.

A qualquer deslize, desobediência ou algo que o valha seríamos punidos com castigo físico a base de bolo de palmatória, como tambem horas intermináveis ajoelhados, enquanto o nosso querido Leleco, acomodado confortavelmente em uma cadeira preguiçosa nos vigiava ao tempo que lia Jornais, revistas, bíblias e outros, ao se ausentar por qualquer motivo imediatamente ficávamos de pé exercendo rigorosa vigilância a todos os passos do padre para que não fossemos flagrado desobedecendo o castigo. O Padre Brandt era extremamente rigoroso, exigente e severo, com o passar do tempo fomos identificando seus modus operandi para nos proteger, como tambem driblar suas investidas, era mais ou menos uma mistura de briga de gato e rato.

Havia uma situação que a população arariense não tinha conhecimento, especialmente em relação a sua batina, quando vestia a de cor azul, era o termômetro para nós, estava alegre, feliz, sorridente e brincalhão com todos, quando trajava a de cor preta era motivo de preocupação, pois seu comportamento transformava-se no anjo da violência. Outro detalhe, quando vestia camisa social com os punhos enrolados para cima, apontava para a primeira oportunidade aplicar um bogui em alguém, no caso da camisa de manga curta identificava que iria a qualquer momento surpreender um aluno na sala de aula para interrogar a página que estivesse aberta a leitura.

Ouço muita gente tecendo comentários em relação aos procedimentos de comportamento do saudoso Pe. Brandt, mas quem tem de fato conhecimento de suas nuances somo nós que convivíamos o dia inteiro durante todo o ano em sua casa formando uma só família.

O padre foi um exímio educador, abnegado e compromissado com sua missão, nos ensinou como calçar uma meia, dar nó em gravata com diferentes formas, escovar os dentes, fazer higiene pessoal, tomar um copo com água com a mão oposta virada de costa evitando que pingos caísse na roupa. No ato de solver água ou qualquer outro líquido o copo deveria ser declinado levemente, não sendo necessário você ficar olhando para dentro do mesmo ou movimentando os olhos pra esquerda e para direita na impressão de loucura ou algum desequilíbrio, ensinou-nos a usar o talher, garfo na mão esquerda e faca na mão direita, no caso de usar apenas o garfo a faca deveria ser colocada na borda do prato do lado esquerdo orientava mastigar o alimento com a boca fecha, não falar com a boca cheia, não beber enquanto comia.

Apos as refeições era feito uma preleção, conselhos, orientações, informações avisos e ameaças, a cada refeição era escolhido um interno para ler um trecho da bíblia, finalmente as orações de início e final (Agradeço senhor por esse alimento e dádivas que vamos receber amem); (Agradeço senhor pelos dons e dádivas que recebemos amem), éramos liberados por 15m para em seguida retornávamos à sala de aula para aguardar a campainha do ginásio arariense para o tão esperado momento, encontro com as belas e maravilhosas ninfetas, cocotas e belíssimas jovens da cidade, colegas, companheiras, amigas e namoradas.

Ao longo dos meus 66 anos reconheço a importância do trabalho do Pe. Brandt a educação de todos nós, os gestos, atos, ações e posturas disciplinares rigorosíssimas com o objetivo de transformar sucatas humanas em cidadãos dignos, íntegros e corretos, cotidianamente asseverava: “Vocês estão sendo capacitados para assumirem o comando do Brasil em um futuro muito breve”.

Carlos Amorim DRT 2081/PI

Teresina 02 de novembro de 2017

Pauta exclusiva para o jornal “Notícias de Vanguarda”



Tags:
Este texto foi publicado em sexta-feira, novembro 3rd, 2017 às 9:49 am na(s) categoria(s) Geral. Você pode acompanhar todos os comentários deste post através do feed RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou dar trackback através do seu próprio site.

1 comentário para “Odiado e amado mestre”

  1. Marly cutrim

    Amei cada palavra,tudo me pareceu tao distante e ao mesmo tempo tao proximo mas uma coisa eu sei muito bem:esta e a saudade que mais gosto de ter.

Deixe um comentário

Seu comentário