Mito falseado com verdades

A Teresina que conheci nos anos 50 era ornamentada por casebres de palhas adjetivados de palafitas, margeando o rio Parnaíba com início na fábrica de fiação em direção ao DNPVN nas proximidades da ponte metálica João Luis Ferreira.

As condições de vida do povo era abaixo da linha de miséria, o mercado São José, popular mercado central era fonte de negócios de toda cidade. O mercado do Mafuá, Cajueiro, Vermelha e Piçarra eram insignificantes, apenas um conglomerado de bancas de madeiras e de ambulantes expondo suas mercadorias no chão, em cima de esteiras e lonas.

Apenas três colégios públicos se notabilizavam atendendo a demanda educacional (Escola Normal Antonino Freire, Liceu Piauiense e Escola Industrial).

Os costumes eram absolutamente opostos aos de hoje, geladeira era objeto de luxo, fogão elétrico era coisa do outro mundo.

O cinema poeira na Piçarra, Rex e Teatro 4 de setembro na praça Pedro II perderam seus status com a inauguração do Cine Royal com suas confortáveis poltronas, ar-condicionado e sessões contínuas.

Os grandes points de lazer, bebedeira e prostituição resumiam-se na boate Estrela na rua Paissandu, panelada da dona Maria Maior e a palha de arroz antro localizado onde hoje está estabelecida a Caixa Econômica na Avenida José dos Santos e Silva. Os mais refinados e elitizados frequentavam o clube dos diários e o Jockey Club. As empregadas domésticas oriundas dos mais diferentes e distantes municípios do Piauí conformavam-se com a praça em frente ao quartel da Polícia Militar, espaço adjetivado pejorativamente de curical.

Naquela ocasião apenas duas emissoras de rádio, Clube de Teresina e Difusora, a Pioneira só em 1962, havia também importante veículo de comunicação escrito, jornal O Dia.

Os consumidores de carne exigiam dos açougueiros a parte mais gorda que tivesse, no caso do suíno, exigiam a pesada do porco com 90% de gordura e toucinho para a manipulação de um pirão de farinha com bastante sustança, da mesma forma era usado o tutano de boi. Nos dias de hoje essa bomba mortal é conhecida como gordura saturada ou Deus te leve em paz.

O comprimido do tetrex era a droga milagrosa para a cura de doenças venéreas, doenças sexualmente transmissível, que o diga o enfermeiro de saudosa memória Pedro Margarida, que tinha seu ambulatório na esquina das ruas Álvaro Mendes com João Cabral.

O transporte coletivo lembro-me da empresa do Manoel Morais, ainda formada por kombi, anos depois progrediu para ônibus convencionais. A praça Saraiva servia como rodoviária de onde partia e chegava os paus-de-arara do transporte intermunicipal, carregados de bodes, porcos, galinhas, frutas e verduras das mais diferentes especialidades, ao ser descarregados os produtos tornava-se verdadeira feira ao ar livre na via pública daquela artéria.

O comércio de Teresina situava-se no miolo da cidade, no quadrilátero das ruas David Caldas, Areolino de Abreu, Rui Barbosa e Álvaro Mendes.

A cadeia localizada em frente ao estádio Lindolfo Monteiro, os condenados cumpria suas sentenças em toda sua plenitude em regime fechado. É importante informar que não havia rebeliões, confusões, desobediências e agitações, a disciplina era rigorosíssima.

O hotel Piauí era o único da cidade, considerado cinco estrelas, atualmente Lux Hotel, após várias reformas. O café avenida onde funcionava a Câmara Municipal de Teresina foi demolido e hoje serve de estacionamento do hotel citado.

Apuração das eleições, processado manualmente demandava dezenas de dias a proclamação dos vitoriosos.

No quesito automóveis o que tínhamos era os confortáveis Jepp, tempos depois vieram Rural Willys, DKV e outros.

Não lembro as vezes que comprei duas colheres de manteiga real, cem gramas de açúcar, uma quarta de quilo de café, meio litro de leite e dois pães massa grossa dos grandes, produtos suficientes para o jantar e o café da manhã do dia seguinte.

A água encanada era privilégio de pouquíssimos, lembro-me do funcionário da empresa de energia, água e esgoto do Piauí que abria e fechava o sistema com uma chave cumprida tipo alavanca na rua Coelho Rodrigues entre a Escola Normal Antonino Freire e Assembleia Legislativa que deram lugar a atual sede da prefeitura e a secretaria da cultura do estado. O funcionário com essa imensa responsabilidade era o senhor Antônio Juvina, coincidentemente meu tio.

Faço esse resgate para demonstrar aqueles que reclamam e se debatem referente as dificuldades do século XXI ano 2017, sem imaginar as agruras que foi o passado, declinarei duas situações contraditórias:

Quando estudei o primário no Grupo Escolar Félix Pacheco e Escola Modelo Artur Pedreira, ambas funcionavam no horário matutino e vespertino onde hoje é a prefeitura, nosso objetivo era estudar. A merenda era os produtos da aliança para o progresso oriundos dos Estados Unidos, nesse quesito as atribuições dos colégios atualmente é servir farta refeição ao alunado, arroz, macarrão, sardinha, frango, linguiça, ovo e salsicha, se faltar esses produtos o aluno não vai para a escola.

A drástica realidade, o professor não comparece a sala de aula porque falta-lhe o vale-transporte, pode até ter recebido o mesmo, mas negociou antes do término do mês obrigado pelas circunstancias e pelo mísero salário de fome que percebe os docentes do ensino público.

Carlos Amorim DRT 2081/PI

1 comentário em “Mito falseado com verdades”

  1. Maria José

    Amei seu texto não sei quando escreveu, mas vivi aquela época. Morava na rua Joaquim Ribeiro, hoje João Cabral . Tinha 8 anos e íamos para a Escola Modelo a pé. Havia um senhor que passava filmes do Oscarito em cima de um caminhão ali pelas imediações da Campos Sales. Tempo mais difícil mas com segurança. Os vendedores de picolés andavam com uma caixa comprida de madeira no ombro, e, como eram gostosos aqueles picolés.

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