De boia-fria a sangue azul inglês

Em janeiro de 1973 cheguei ao Rio de Janeiro, três meses fiquei perambulando pela cidade maravilhosa, conheci superficialmente os points de grande concentração de pessoas, bares, boates, locais da boemia carioca, um dos meus pontos preferidos era os inferninhos da praça Mauá, artéria portuária, onde rolava todo tipo de movimento à disposição de quem tinha condição de pagar, a moeda corrente era o dólar americano, por ser ponto de embarque e desembarque de navios que fazem cruzeiros, como tambem cargueiros, graneleiro e marinha mercante.

Durante um ano e meio residi no hotel Guanabara, localizado a avenida Getúlio Vargas, centro do Rio de Janeiro, na oportunidade um jornaleco ocupando um pequeno salão ao lado do hotel que fazia a encadernação do jornal na calçada se transformou no império Sistema Globo de Comunicação. Todo o progresso desse parque multinacional aconteceu pelo absoluto apoio que o seu criador assegurou ao processo ditatorial no Brasil.

O jornalista Roberto Marinho, em um editorial contundente declarou ter contribuído de forma substancial para a permanência dos militares no poder da república brasileira, recebendo como recompensa ampla liberdade e proteção dos milicos para desenvolver seu trabalho sem sofrer a mínima perseguição social, politica, profissional e empresarial. Quarenta e dois anos depois veio a publico, pediu desculpas e se emocionou ao declinar ao povo brasileiro que errou na decisão que tomou ao apoiar injustiças, crimes, violência, agressões, deportações de brasileiros e tudo de mais sórdido que se possa imaginar. Com a benção dos militares conseguiu construir invejável patrimônio pertencente ao sistema Globo de Comunicação (o jornal era a menina dos seus olhos).

Quem conhece o Rio de Janeiro pode testemunhar dezenas de prédios com 20, 25, 30 andares ao longo da Avenida Jardim Botânico, que começa imediatamente após o viaduto que dá acesso à lagoa Rodrigo de Freitas, saindo ou entrando no túnel Rebouças. Nos edifícios que mencionei todos tem sua fachada uma suntuosa placa escrito Rede Globo de Televisão, ao atingir o início do muro do Jockey Club brasileiro, tanto dobrando para direita quanto para esquerda, praticamente todos os edifícios daquela área pertencem a rede globo, sem contarmos a suntuosa matriz, onde toda a programação global era ali realizada. Do outro lado no sentido da lagoa estabelecia-se o teatro Fênix, palco de memoráveis atrações dos mais bem-sucedidos programas da empresa, como tambem todos os enlatados que eram gravados espalhados para o Brasil e o mundo. Acredito que William Bonner e sua companheira Renata não tem conhecimento desses detalhes históricos.

O candidato a presidente Bolsonaro, nessa terça-feira esteve no estúdio do jornal Nacional para uma entrevista, quando massificaria suas propostas aos cidadãos e cidadãs do Brasil, os apresentadores jamais imaginaram que o entrevistado havia se preparado para aquele embate, ou seja, estava armado de metralhadora fina com munição dundum, invejável a KGB da Rússia que conseguiu através de sua inteligência ludibriar o FBI americano.

Bonner questionou o motivo quando o candidato declinou em um programa de televisão que não era necessário a mulher ganhar mais que o homem. Quem decide o problema é o Ministério do Trabalho. O mesmo entremeou seus argumentos informando pontos legais para combater desrespeito a legislação trabalhista como exemplo citou a Justiça do Trabalho, os apresentadores não se convenceram e insistiram no mesmo tema, o candidato entrevistado disse a ambos: Estou de frente para um casal, um homem e uma mulher, ambos fazem o mesmo serviço, mas seus salários são diferentes (na minha pífia avaliação “bota diferença nisso”), foi o suficiente para que o Bonner metesse sua viola no saco e retomasse a entrevista com outro tema.

Trouxe a baila o auxílio-moradia que o candidato recebe, mas diz ser diferente dos demais, o Bolsonaro deu suas explicações, asseverou que o apartamento de sua propriedade é pequeno, inclusive mudou-se para a moradia funcional, pois tinha que pagar uma série de encargos havendo a impossibilidade de sua permanência. Houve uma insistência do Bonner, com o mesmo argumento, foi rechaçado ao ser informado pelo entrevistado que era um homem honrado sem uma única nódoa ou registro por um mínimo envolvimento em falcatruas, bandidagem e corrupções, nunca pediu dinheiro a ninguém para suas campanhas, pois sempre usou recursos dos seus proventos para valorizar o máximo possível seus votos.

Questionaram algumas declarações do seu vice, o candidato entrevistado havia declarado que ficaria consigo durante todo o mandado presidencial, o Bonner reagiu dizendo que era um ato impensado, pois ele não conseguiria impedir um rompimento por algum motivo daquele que ele confiava cegamente, o Bolsonaro reagiu dizendo que estava namorando com seu vice há muito tempo e que suas declarações referia-se a um casamento, da mesma forma como ocorre no ato homem e mulher que no altar ou perante o juiz prometem vida eterna até que a morte os separe, posteriormente por algum motivo pode ocorrer o desenlace separando o casal, cada um para o seu lado e novas conquistas e adesões virão.

Na minha concepção o adagio popular identificado na celebre frase “escreva quem quiser e leia quem souber” acredito que a tirada do entrevistado refere-se a separação Bonner e Fátima Bernardes, fato que gerou imediatamente um novo tema, violência, perguntado o que faria para contê-la Bolsonaro assegurou: Se eles vierem de 7 6 2 nós reagiremos com violência com calibre maior, uma bazuca por exemplo, se vierem com outro artefato mais poderoso, vamos para cima deles com tanque de guerra, o que não é admissível é que esses caras desafiem e matem policiais livremente a luz do dia, se vierem com fuzil vamos para via de fatos para no mínimo contê-los, fato provável é a eliminação dos mesmos.

O Bonner se referiu aos gastos gigantescos que a união sustenta com o aparato de policiais e Forças Armadas Brasileiras, a reação foi imediata com o seguinte argumento: A Rede Globo é essa potência porque o governo coloca milhões do dinheiro publico nos seus cofres para manter a empresa, cujo salário que lhe é pago sai desse recurso, portanto o estado brasileiro tem obrigação de manter suas instituições.

O Bonner levou o tema para o processo ditatorial no período de exceção, quando o candidato declinou que não trabalhará com corruptos, bandidos e viciados, terá independência e soberania para tirar o Brasil do estado que se encontra, o apresentador encurralado apelou declarando que aquilo era uma ditadura, Bolsonaro retirou um texto do bolso e leu mesmo contra a vontade dos apresentadores o celebre editorial do Roberto Marinho, confessando apoio ao processo do golpe militar de 31 de março de 1964.

A entrevista foi finalizada, o programa teve sequência, ao final do mesmo o Bonner leu um documento referente ao pedido de desculpas do jornalista Roberto Marinho, por ter cometido a insensatez de apoiar a ditadura em desfavor do povo brasileiro, este documento foi publicado em todos os jornais do Rio de Janeiro em 2002.

Não reconheço autenticidade nas tais declarações contidas no documento, em virtude que o arrependido não devolveu ao estado brasileiro todo o império que amealhou ao longo da sua fidelidade cega durante 21 anos de pau de arara, nos modus operandi o prende e arrebenta para depois perguntar quem era.

O povo brasileiro tem a oportunidade ímpar nesse momento crucial de saber quem são os verdadeiros inimigos de nossa pátria.

Carlos Amorim DRT 2081



Este texto foi publicado em quarta-feira, agosto 29th, 2018 às 10:33 am na(s) categoria(s) Crítica, Geral. Você pode acompanhar todos os comentários deste post através do feed RSS 2.0. Você pode deixar um comentário, ou dar trackback através do seu próprio site.

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